Feeds:
Posts
Comments

Archive for February, 2010

O Zepelim convidou o artista sonoro André Castro, para visitar os estúdios da Rádio Universidade de Coimbra e apresentar o seu novo projecto Radio Fragments.

Uma estação de rádio é sintonizada, e o software desenvolvido por André Castro, Radio Fragments a partir da plataforma SuperCollider, analisa e selecciona em tempo-real, aquilo que normalmente se procura evitar em contexto radiofónico: pausas, indecisões, espirros, ruídos, espaços mortos. Fragmentos de rádio que são desmultiplicados por diversas camadas de processamento aleatório, originando o tecido sonoro que compõe Radio Fragments. Criam-se espaços entre espaços, não-ditos, hesitações, o respiro antes da palavra e o silêncio. Numa altura em que as rádio nacionais, clonam blocos maciços em formato playlist coloridos pelos mais diversos filtros, Radio Fragments parece servir como um manifesto que devolve ao espaço radiofónico, o erro e a imperfeição.

No início da emissão, ouvimos  a leitura de António Sérgio a um excerto de um conto de Heinrich Böll, “A colecção de silêncios do Dr. Murke”, presente no livro “Contos Irónicos”.

Biografia:

André Castro é um artista sonoro, licenciado em artes sonoras pela Universidade de Middlesex, Londres. Começou a sua formação artística pelas áreas da dança e da performance no c.e.m – centro em movimento no ano de 2001. Foi neste espaço que iniciou o seu trabalho com materiais sonoros, e no qual tem vindo a apresentar e a desenvolver alguns dos seus projectos.

Na sua prática tem-se movido constantemente entre dois universos; Umas vezes pelo mundo da música por computador, com as a suas texturas meditativas, ruídos, blips, algoritmos e construção de software específico. Outras vezes, voltando costas ao ecrã do computador, decide sair com um microfone e dedicar-se à captura da incrível diversidade sonora que nos rodeia, e das vozes e histórias que se escondem em cada pessoa. Comum a estas duas vertentes é o despojamento de elementos visuais que tem caracterizado a maioria dos seus trabalhos.

Para além dos projectos a solo, parte importante do seu trabalho tem-se desenvolvido através de colaborações com coreógrafos, artistas visuais, músicos, e cientistas com um projecto de sonificação de dados científicos realizado no Departamento de Física da Universidade de Aveiro, integrado no programa Experimentação Arte | Ciência e Tecnologia.

Em 2008 concluiu uma série de três documentários sonoros intitulados  Subterrâneos de Lisboa, dedicados ao pouco conhecido mundo subterrâneo desta cidade.

Destaca ainda o projecto Boat People – uma série de registos áudio, de conversas tidas com pessoas que vivem e trabalham em barcos nos canais que cruzam Londres e no rio Tamisa.

Integra, desde 2001, a estrutura c.e.m – centro em movimento.

Radio Fragments (Instalação):

Radio Fragments é uma instalação sonora que procura explorar uma atenção auditiva, diferente da associada à experiência de ouvir rádio, fazendo uso dos espaços-entre-palavras-ou-música ocorridos durante uma emissão radiofónica.

A formula base desta instalação consiste num mecanismo de análise-controle (construído no ambiente de programação para síntese e processamento de som SuperCollider) existente num computador e alimentado ao vivo pela emissão de uma estação de rádio mainstream. Este mecanismo actua em tempo-real sobre a emissão radiofónica, como um noise-gate às avessas, evidenciando aquilo que é normalmente ignorado ou mesmo evitado num contexto radiofónico (suspiros, gaguejos, pausas, espaços-mortos e erros), e suprimindo todos os outros sons tais como palavras ou músicas. Estes fragmentos tornam-se a matéria prima a partir da qual a narrativa sonora de Radio Fragments é construída, fazendo uso de diversos processos de manipulação de áudio, que actuam sobre os fragmentos, desdobrando as suas potencialidades sonoras.

Recentemente, um sistema de luz reactivo, construído com Arduino, foi acrescentado à instalação, o qual reage ao surgimento dos fragmentos, intensificando a intensidade lumínica do espaço momentaneamente, para voltar ao seu estado inicial obscuro assim que o fragmento se deixa de ouvir.

PodcastDownload

(edit: links actualizados)

Carlo Patrão &  Afonso Biscaia

Advertisements

Read Full Post »



A liberdade de imprensa é um dos valores fundadores das democracias ocidentais, consagrado e salvaguardado em diversas legislações posteriores à Revolução Francesa de 1789. Concretamente no artigo 19.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948),  onde se diz que “Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão.” [negrito nosso], o que se reflecte no artigo 38.º da Constituição da República Portuguesa,

Liberdade de imprensa e meios de comunicação social

1. É garantida a liberdade de imprensa.
2. A liberdade de imprensa implica:
a) A liberdade de expressão e criação dos jornalistas e colaboradores, bem como a intervenção dos primeiros na orientação editorial dos respectivos órgãos de comunicação social, salvo quando tiverem natureza doutrinária ou confessional;
b) O direito dos jornalistas, nos termos da lei, ao acesso às fontes de informação e à protecção da independência e do sigilo profissionais, bem como o direito de elegerem conselhos de redacção;
c) O direito de fundação de jornais e de quaisquer outras publicações, independentemente de autorização administrativa, caução ou habilitação prévias.
3. A lei assegura, com carácter genérico, a divulgação da titularidade e dos meios de financiamento dos órgãos de comunicação social.
4. O Estado assegura a liberdade e a independência dos órgãos de comunicação social perante o poder político e o poder económico, impondo o princípio da especialidade das empresas titulares de órgãos de informação geral, tratando-as e apoiando-as de forma não discriminatória e impedindo a sua concentração, designadamente através de participações múltiplas ou cruzadas.
5. O Estado assegura a existência e o funcionamento de um serviço público de rádio e de televisão.
6. A estrutura e o funcionamento dos meios de comunicação social do sector público devem salvaguardar a sua independência perante o Governo, a Administração e os demais poderes públicos, bem como assegurar a possibilidade de expressão e confronto das diversas correntes de opinião.
7. As estações emissoras de radiodifusão e de radiotelevisão só podem funcionar mediante licença, a conferir por concurso público, nos termos da lei.

bem como pela maior parte das leis fundamentais dos países que vivem em democracia. Apesar de serem limitadas por diversas outras leis que previnem os danos que poderiam ser causados à quem se veja injustamente acusado, como aquelas que punem a difamação e a injúria escrita (artigos n.º182, 183 e 184 do Código Penal, por exemplo),  as liberdades de imprensa e expressão criaram problemas, especialmente a políticos, de que o exemplo mais fulgurante será o caso Watergate, que culminou com a demissão do presidente Nixon dos EUA (1974).
Este assunto, apesar de ser sempre actual,  ganhou um enorme destaque nas últimas semanas, em particular em resultado do que tem acontecido no sobejamente publicitado caso “Face Oculta“, e à volta do mesmo. A partir destes elementos, o programa utilizou excertos de intervenções públicas de vários políticos acusados de atentarem ou tentarem atentar contra a liberdade de imprensa, como Benito Mussolini, Fidel Castro, Hugo Chavez, Silvio Berlusconi, José Sócrates ou Alberto João Jardim, de dois jornalistas portugueses que acusam o actual governo de cercear a sua liberdade de expressão (Manuela Moura Guedes e Mário Crespo), possíveis posições no debate sobre a natureza e as limitações destas liberdades (José Pacheco Pereira e José Sá Fernandes), para além de algumas notícias sobre temas realacionados.

Mapa da Liberdade de Imprensa no Mundo

Alinhamento

Silêncio de Cavaco Silva antes de fazer uma declaração ao país [1m12s -1m55s]
Saudação de Cavaco Silva antes de fazer uma declaração ao país [1m56]
Manuela Moura Guedes – Foram Cardos, Foram Prosas (Alibi, 1982) [1m57-5m44s]
Manuela Moura Guedes na abertura do “Jornal Nacional” [2m-5m40s]
Hugo Chavéz discursa contra a estação televisiva venezuelana Globovisión [5m05s-9m44 e 10m39s-16m55s]
Hugo Chavéz – Con Amor al Pueblo (Canciones de Siempre, 2007) [9m44s-17m25s]
José Sócrates acusa a imprensa de o querer atacar pessoalmente, na sequência do caso “Freeport[17m22s-19m26s]
Notícia da SIC-Notícias sobre a crónica de Mário Crespo que não foi publicada no Diário de Notícias [18m05s-19m36]
Lichens – M st r ngn W teher ft L v ng n [Omns, 2007][19m10s-37m41s]
Excerto do discurso de Hugo Chavéz contra a Globovisión “No no no, es otra cosa, compadre !” [19m36s-19m38s]
Alberto João Jardim insulta a imprensa “do continente” [19m39s -19m54s]
Introdução [20m41s-21m38s]
Debate da Subcomissão Parlamentar da Área da Comunicação Social e dos Direitos Fundamentais [23m05s-29m30s]
Excerto de um Debate Plenário na Assembleia da República [28m52s-31m50s]
Notícia sobre a saída do Google do mercado chinês, devida a ataques informáticos a defensores dos direitos humanos na China [29m05-31m08s]
Mário Crespo comenta o silêncio de Cavaco Silva antes da sua declaração ao país [31m10s]
Silêncio de Cavaco Silva antes de fazer uma declaração ao país [37m34s-38m24]
Discurso de Benito Mussolini aos americanos em 1929 [38m24s-39m33s]
Notícia sobre o desmentido de Silvio Berlusconi acerca do seu envolvimento nos ataques que o jornal “Giornale”, propriedade da sua família, ao jornal “L’Avvenire” [39m30s-41m28s]
José Pacheco Pereira critica, no programa “Quadratura do Círculo” a ordem da Câmara Municipal de Lisboa de retirar um cartaz do PNR que considerou xenófobo [41m21s-41m05s]
José Sá Fernandes justifica, à rádio TSF, a ordem da CâmaraMunicipal de Lisboa de retirar um cartaz do PNR que considerou xenófobo [41m02s-42m51s]
Fidel Castro é entrevistado no programa “Meet the Press”, em 1959 [42m50s-43m42s]
Biosphere – Warmed by the Drift (Dropsonde, 2006) [43m41s-50m38s]
Afonso Biscaia, Carlo Patrão e Lígia Anjos rasgam jornais [44m32s-49m24s]
Pat Candell, “Freedom of Speech is Sacred” [46m56s-50m46s]
Despedida [50m16s-40m45s]
Biosphere – In Triple Time (excerto) (Dropsonde, 2006) [50m38s-53m41]
Excerto do discurso de Hugo Chavéz contra a Globovisión “No no no,  es otra cosa,compadre!” [53m47s-53m49s]
Hugo Chavéz – Con Amor al Pueblo (Canciones de Siempre, 2007) [53m48s-58m18s]

PodcastDownload

Afonso Biscaia

Read Full Post »

Radio Fragments is a radiophonic project that aims to explore an auditory attention, different from the one usually associated with the experience of listening to the radio, making use of the spaces in between words and songs that occur throughout the radiophonic discourse as its main reagent.

Its basic formula consists of an analysis-control mechanism (built in Super Collider) residing inside a computer to which a real-time mainstream radio broadcast is fed. This mechanism acts as a reversed-noise-gate, singling out what is usually ignored or avoided in a radiophonic context (whispers, stumbles, pauses, dead spaces and errors) and muting all the other sounds such as words or songs.These punctuating fragments become the raw materials from which Radio Fragments sonic concoction is brewed.

André Castro

Read Full Post »

(…) # Rule number 6: Many hacks are like butterflies: beautiful but short-lived

(Handmade Electronic Music – The art of hardware hacking de Nicolas Collins)

A premissa que fundou esta emissão de Zepelim, prendeu-se com a constatação de um possível paralelo sonoro entre a música obtida através de técnicas de hardware hacking e o som realizado por várias espécies de insectos. Cruzamos captações sonoras de insectos que habitam as florestas do norte da Tailândia, com a compilação que acompanha o manual Handmade Electronic Music – The art of hardware hacking de Nicolas Collins, deixando que ambas sonoridades se dissolvam num mesmo ambiente homogéneo.

Nicolas Collins - Graduation from Wesleyan, 1976. Alvin Lucier and Nicolas's mother

O compositor Nicolas Collins nasceu em 1954, em Nova Iorque. Aos 18 anos inscreveu-se na Wesleyan University, inicialmente pelo seu interesse em estudar música indiana mas rapidamente expandiu os seus objectivos quando conheceu o compositor Alvin Lucier, autor de peças como I’m sitting in a room (1969) ou Vespers (1968) – que podem ser escutadas aqui. Lucier foi membro fundador do colectivo de músicos Sonic Arts Union ao lado de Robert Ashley, David Behrman, ou Gordon Mumma e, imprimiu em Nicolas Collins a ideia de que a música pode conter referências estruturais fora de si mesma, na biologia, arquitectura, neurologia, etc. Para além do colectivo Sonic Arts Union, Collins cedo tomou contacto com o trabalho de John Cage, a partir de várias residências feitas na Wesleyan University durante a década de 70.

Nicolas Collins performing Pea Soup inside an installation of Niche, PS1, Long Island City, NY, 1980

Collins, veio a tornar-se num pioneiro no uso de micro-computadores em performances ao vivo, colocando em prática a intervenção em circuitos electrónicos (circuit-bending) a partir de objectos de uso quotidiano como pequenos rádios e baratos e ingénuos brinquedos (ex. toy keyboards), arte a que apelida ironicamente de “glue technology”. Para além da modificação de pequenos objectos electrónicos, Collins dedica-se a reinventar instrumentos como a guitarra (“The Backwards Electric Guitar“) ou o trombone (“Trombone-Propelled Electronics“). Actualmente, Nicolas Collins é o responsável pelo Department of Sound at the School of the Art Institute of Chicago. Foi, então, em 2006 que o compositor nova- iorquino edita o manual de iniciação à modificação de objectos electrónicos com vista à sua expansão e criação de novas experiências sonoras, de nome Handmade Electronic Music – The art of hardware hacking. Como suplemento ao livro, Collins reuniu numa compilação vários artistas mestres na arte de hardware hacking como Peter Cusack, Andy Keep ou John Bowers, do qual retirámos as faixas:

Nicolas Collins – sl loop excerpt

John Bowers – Study one for victorian synthesizer

Josh Winters – Radio study 4

Phil Archer – Yamaha pss-380

Yasunao Tone – Imperfection theorem of silence

Peter Cusack – Baikal ice excerpt

Collin Olan – rec01 excerpt

A abrir e a fechar emissão apresentamos um breve excerto de um dos episódios do programa de rádio norte-americano “The Mysterious Traveler“. A série radiofónica The Mysterious Traveler, começou a ser emitida pela Mutual Broadcasting System a Dezembro de 1945, e pretendia suscitar o terror aos ouvintes, pela dramatização de contos de ficção científica, escritos por Robert Arthur e David Kogan e narrados por Maurice Tarplin: This is the Mysterious Traveler, inviting you to join me on another journey into the strange and terrifying. I hope you will enjoy the trip, that it will thrill you a little and chill you a little. So settle back, get a good grip on your nerves and be comfortable — if you can! . Escolhemos o episódio “The Man The Insects Hated” como breve referência ao lugar que os insectos ocupam no imaginário colectivo perto da fobia e da angústia de perseguição.

Lista de insectos escutados: Aola bindusara, Ayuthia spectabile, Cicada ventriroselus, Cryptotympana aquila, Cryptotympana sp., Dundubia interemata, undubia nagarasingna, Dundubia spiculata, Macrosemia chantrainei, Macrosemia tonkiniana, Meimuna nauhkae, Meimuna new, Meimuna tavoyana, Orientopsaltria cantavis, Platylomina umbrata, Pompona scitula, Pomponia dolorosa, Pomponia fuscuoides, Pomponia intermédia, Pomponia linearis, Salvazana mirabilis, Tosena albata, Tosena melanoptera, crickets, carpenter bee, longhorn beetle, katydid, death’s head hawk moth…

Ao longo da emissão acrescentámos ainda excertos de faixas do compositor Harry Partch,  Ballad for Gymnasts aos minutos 1:30 e 6:00, The dreamer that remains- a study in loving (19:06′) e Windsong (37:21′) e Pierre Henry – La Reine Verte (Les Insectes) (18:19′)

https://i1.wp.com/2.bp.blogspot.com/_Rf9S3GkkeyI/SEvATEUsU0I/AAAAAAAAAps/_niJ9vxvjew/s320/steve+ditko.+tales+of+the+mysterious+traveller.+no.+006.+cover.jpg

PodcastDownload

(edit: links actualizados)

Carlo Patrão

Read Full Post »

%d bloggers like this: